As feridas vasculares são um desafio frequente na prática clínica e exigem um olhar especializado — especialmente do Enfermeiro Dermatologista. Diretrizes da Associação Brasileira de Estomaterapia (SOBEST) e consensos internacionais reforçam que o sucesso do tratamento depende, antes de tudo, da identificação correta da etiologia da ferida e da abordagem da causa de base.
Úlcera Venosa
Segundo a SOBEST, a úlcera venosa decorre da insuficiência venosa crônica, caracterizada por hipertensão venosa sustentada, geralmente associada à incompetência valvar e estase sanguínea.
Características clínicas:
- Localização predominante: região do maléolo medial
- Bordas irregulares
- Leito úmido, com exsudato moderado a intenso
- Presença de edema, hiperpigmentação e dermatite associada
- Dor leve a moderada (melhora com elevação do membro)

Condutas baseadas em evidências:
As diretrizes nacionais e internacionais apontam quatro pilares principais:
- Terapia compressiva (padrão ouro)
- Compressão graduada (30–40 mmHg) melhora o retorno venoso
- Tratamento local da ferida
- Manutenção de ambiente úmido controlado
- Manejo adequado do exsudato
- Controle de infecção
- Uso criterioso de antimicrobianos quando indicado
- Prevenção de recidiva
- Uso contínuo de compressão
- Exercícios e elevação de membros
Ponto-chave clínico: antes de iniciar a compressão, é essencial avaliar a presença de doença arterial associada, geralmente por meio do índice tornozelo-braquial (ITB).
Úlcera Arterial
As úlceras arteriais são consequência da doença arterial periférica (DAP), frequentemente associada à aterosclerose, levando à isquemia tecidual.
Características clínicas:
- Localização: dedos, dorso do pé e calcâneo
- Bordas regulares e bem definidas
- Leito seco, frequentemente com necrose
- Pele fria, pálida ou cianótica
- Dor intensa, especialmente em repouso ou elevação do membro
- Pulsos diminuídos ou ausentes

Condutas baseadas em diretrizes:
- Avaliação vascular imediata (Doppler, ITB, exames complementares)
- Controle rigoroso de fatores de risco: diabetes, hipertensão, dislipidemia, tabagismo
- Revascularização (quando indicada): abordagem endovascular ou cirúrgica
- Cuidado local conservador, evitando desbridamento agressivo sem perfusão adequada
⚠️ Alerta importante: a terapia compressiva é contraindicada na presença de isquemia significativa.
O papel do enfermeiro dermatologista na prática baseada em evidências
O estomaterapeuta atua de forma decisiva na condução dessas lesões, sendo responsável por:
- Avaliação clínica e diferencial etiológico
- Indicação de coberturas baseadas em evidências
- Implementação segura da terapia compressiva
- Monitoramento da evolução e sinais de complicação
- Educação em saúde e prevenção de recidivas
Diretrizes da Associação Brasileira de Estomaterapia (SOBEST) destacam que a atuação especializada reduz tempo de cicatrização, recidivas e custos assistenciais.
As feridas vasculares exigem uma abordagem clínica sistematizada e baseada em evidências. Enquanto a úlcera venosa responde bem à compressão e ao manejo do exsudato, a úlcera arterial demanda avaliação vascular urgente e, muitas vezes, intervenção para revascularização.
Mais do que tratar a ferida, é essencial tratar a causa.

